Gênero Lírico: Seu nome deriva de Lira, Instrumento musical que acompanhava os cantos dos Gregos. Tem como características a métrica, a divisão de estrofes e a rima.
( Aqui na Orla da Praia... )
Aqui na Orla da Praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que deseja,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que faz vazio;
O amor é sono que chega ara o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.
Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágica e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa da face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei;
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só no silencio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distancia de um ser que nunca foi seu
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.
(Fernando Pessoa, seleção poética
p.101,102.poema escrito em 10-08-1929)
Tema: O poema, bucólico por sinal, trata de um contraste espiritual: o ser e o não ser. Esse conflito da alma humana perturba os sentidos e tem por hábito buscar abrigo nos braços da solidão.
Tese: Ultrapassando os limites racionais, Fernando Pessoa, na tentativa de se encontrar oscila entre o concreto X o imaginário relatando a brevidade da vida ao compará-lo a uma sombra passageira. Nesse poema, faz jogo de contradição carregando de sentimentalismo ao fazer alusão a morte em um desabafo melancolicamente profundo: “ E comecei a morrer muito antes de ter vivido”.